Momento I
Sonho desfeito
Grotesca imagem
Que fuma rancores
De falsas dores.
Homem sem vida
Respira amargurado
Coração de pedra
Sangue contaminado
Alcoolizado de maldade
De homem sem vida
Que dura vida inteira.
Esquecido em terra
Terra que lhe pesa
De ser homem sem vida
Deambula com dores
Sem lágrimas nem gemidos
Entre sofrer e sonhar
Sofre vida inteira
Que nele não se abeira.
Momento II
Um amor que dura
E que findará
Tem os seus efeitos colaterais
Por vezes doentios rebentos.
Ontem na tua ausência
Estabeleci um recorde
De que tudo recordo
Viver tua solidão
Sei que tudo ganho
Só por prazer de te ver
Sei que tudo tenho
Por não te perder.
Perdoa meu grito
Meu pensar agir e olhar
Precisei e preciso de ti
Para poder sonhar
Se queres meu coração
Sabendo que está cheio
Sabes que tens minha mão
Mesmo que me digam – NÃO!
Momento III
Tão longe de meu corpo
Tão perto de pensamento e desejo
Por ti perdido
Por outras achado em camas gastas
A erecção apressada parte
Sem que sinta calor
Em noites perdidas e enganadas
O amor, esse fica para a memória
De ser corpo abandonado!
Momento IV
A porta um dia abriu-se
E o homem entrou.
Descalçou o corpo
Fez gemer a cama que o deitou
Não tendo o prazer
Do corpo que amou.
A porta no dia seguinte fechou-se
O homem partiu
Vagueou nos passeios
Perdeu-se nas ruas
Fez na noite perdida
Amor em descanso.
Momento V
Doente e amarela
Sem forças, nem nervos
Desmaiou!
Escorraçada pelos ventos
Pela rua deambulou
A folha de Outono!
Momento VI
Que prazer vou ter
Pelo útero ou barriga
De meu ser viver
Que prazer vou ter
De gritar meu corpo
De ser mãe e mulher!
Que prazer vou ter
Pela ilharga de meu corpo
Sentir um filho nascer!
Que prazer vou ter
De parir
E não ser parida!
Que prazer vou ter
De dar vida
Á VIDA!
Momento VII
Um dia quando nos encontramos
Vomitaste loucas lágrimas doces
Loucas pulsações
Desejos loucos penetrantes
Aniquilamentos sentimentos loucos
Saíres do vácuo louco!
Tive desejos loucos
Com medo louco de ser louco
Tive sensações de loucos beijos
Socorrer-te foi minha saída louca
Escape louco de um sofrimento louco!
Um dia quando nos encontramos
Dissemos coisas muito nossas
Sonhos loucos
Esquecemos duas vidas loucas diferentes
Vivemos por alegres momentos loucos
Nossos corpos desejosos loucos,
Mas abandonados!
Controlar sentimentos loucos
É doloroso sofrimento louco
É ter corpo louco e estupor
É sentenciar silêncio louco
É querer desejo louco de teu corpo!
Um dia quando nos encontramos
Um dia vamo-nos encontrar loucamente!
Momento VIII
A conversa era de dor
As lágrimas palavras amargas
O aperto do coração intoxicava-lhe o respirar
Vontade não tinha de chorar
Tais eram as dores presas no ventre!
Sem ser mãe, sofreu a dor
Sem ser amiga, transpirou amor
E a criança ainda não nasceu
Mas o rapaz por descuido morreu
E a mulher tanto sofreu!
Roubou-me minutos apressados
Para ela foram momentos descansados!
Na despedida
Dei-lhe um doce beijo
Pedi-lhe para chorar
Desejei-lhe boa-noite
Logo após meu dormir
No acordar novo dia
Sei que a vou ver
Com música nos olhos
Ouvindo em meu coração
A melodia
“Alegria de viver”!
Momento IX
Meu corpo
Minha alma
Meu sorriso
Meu coração tudo partiu!
Momento X
Na vida
Em teu corpo
Há um espaço assombrado
Caminho duro
No qual deslizo!
Momento XI
Perco o rumo
De teu viver diário
O tempo corre
Deixa-me à espera
Teu rumo destapado no deserto
Pecado cometido
Por alguém ofendido
Frágil corpo, alma meu sorriso
Que parte parado
Dentro de mim!
Momento XII
Se houvesse forças capazes
De travar o freio descontrolado
Das imagens que me alimentaram
Daria eu ao tempo
Descanso para meu corpo!
Momento XIII
No dia em que violaste o vestido
Ao longo da perna preta até meia coxa
Os olhos do homem amargurado, brilharam
O lenço! Essa seda do pescoço até ao peito
Torneou almofadando teu corpo
Convidando o homem a descansar!
As figuras reflectidas no espelho do quarto
Estavam sós por estarem sós!
O dia chegou
Completaram-se despindo os corpos
Suaram cheirando amor
Até que o pincel branco do acrílico
Os desfez até um dia!
Dia não sabendo até quando
Dia que um dia, o homem chegou!
Momento XIV
Fizeste parte de meu caminho
Despertaste minhas células adormecidas
Fizeste de mim, palavras traços e sonhos!
Para ti fui lençol de salgadas lágrimas
Águas estagnadas para tuas feridas
E muito que muitos não foram...
...HOMEM!
Momento XV
Quero silêncio
Ao gemer das cordas
Inseminadas no casco das guitarras.
Quero silêncio
Ouvir vozes cantadas
Inspirações dos poetas.
Quero silêncio
Nas noites iluminadas e frias
Abram-se as portas
Acendam-se as velas.
Quero silêncio
Aos dedos dos guitarristas
Ao lenço do Marceneiro.
Quero silêncio
Ao homem que a vida silenciou
Quero silêncio ao FADO.
Momento XVI
Trave de falsos homens
Ar condicionado de vidas
De seres perdidos
Semáforo guiador de sofrimentos
Bandeira que desfralda vadia
Comboio de mercadorias enegrecidas
Circo, riso cigano
Barro em águas estagnadas
Suspiro de negras dores
Passaporte para a vida
Que nunca foi vivida!
Momento XVII
A mãe
Alcoólica de sono
Sentada na berma da cama
Berço, desejos e prazeres
Alimenta corpo nascido faminto
Em peito nobre altivo e sublime!
Momento XVIII
Sabias que enquanto chovia
O vento em mim fustigava?
O frio meu corpo gelava?
As horas passavam silenciosas?
Sabias que teu ramo de flores
Perdeu a força da Natureza
Nos meus braços
Enquanto esperava?
Momento XIX
Sinto dores no corpo abandonado
Sinto falta de células amantes
Sinto em mim estradas errantes!
Sinto a falta de liberdade
De pássaros engaiolados.
A cama é tábua para descanso
As noites são fantasmas.
No teu corpo não mais entrelaço
A água de meu corpo turva
Meus pés tremem em meu quarto!
Momento XX
Meus braços são curtos
Para abraçar tão longa data
Meu coração é pequeno
Para lágrimas em meus olhos
Minhas raízes estão esquecidas
Da terra vizinha de meu berço
Momento XXI
Sendo Primavera
Sinto cheiro e chamamento
Da chama que me ilumina
Sendo veneno doce
Absorvo palavras em descanso.
Momento XXII
Traz-me a cor da água
Da alegria
Ou da sinfonia
Se vieres
Como amante e amigo.
Se vieres
Mostra-me a cor de teu corpo
Ou da Harmonia
Sendo a noite, dia
Se vieres corpo amigo!
Momento XXIII
Todas as manhãs
O namoro dos pássaros
O cheiro da terra
Perfumam meu corpo.
Todas as manhãs
Sinto nova energia
No desvirginar novas telas
No grito dos homens
No meu ser!
Quando pego no arado
Ouço o grito da terra rasgada
Quando pego na enxada
As raízes secas choram a última lágrima.
Um dia quando for esquecido por vós
Que seja o pó da terra
A chorar por mim!
Momento XXIV
Não quero esquecer
Os dias perdidos vadios
Enquanto fumava foste meu ombro arma
Enquanto sofria tua porta se abria
Hoje vadio meu corpo pêndulo seguro
Não mais se esquece dos dias perdidos!
Momento XXV
Nessa noite de chuva tenebrosa
Frente à praia
Perdido no passeio
Iluminado pelas luzes da doca
As imagens de gentes perdidas da noite
Rodopiavam desamparadas.
Baixando a cabeça
Homem solitário
Pecador
Triste e pobre
Partiu!
Momento XXVI
Rocha dura
Vestida de mulher
Criada em casa
Frente ao espelho
Enganada por vozes
De sangue igual ao seu!
As palavras e o amor
Vencem as montanhas
De julgamentos em segredo!
Momento XXVII
Se cada poro de meu corpo
É grama de relvado
Deita-te nele sem o amares!
Faz de meus braços
Longas heras trepadeiras
Faz de meu peito pedra
Almofada de leves penas!
Aperta meu ventre
Até ouvires gritos distantes
De minhas cansadas pernas
Faz esteios para teu corpo
De meu coração
Fá-lo sangrar de suores
Para teu alimento
De meu corpo faz banco
Para teu descanso!
Momento XXVIII
É frio
Ter-se a sensação de estar só
Ter afecto de corpo desprendido
Corpo de penas fortes!
É frio
A amor que procuro
Pólen de abelhas piedosas
Que esta rosa perfumaram!
Momento XXIX
As raízes secaram
Os frutos amargaram
A folha a árvore abandonou
O corpo que pouco amou
A árvore desmoronou-se
Como as serras em Verão quente
A água no corpo acabou
Desta vida parto para sempre!
Momento XXX
Parto sem querer por querer
Fica a imagem de nuvem perdida
Como as dunas do deserto
Há sempre uma vida atrás de outra!
Vida, vida que não se procura
Aparece como as ervas daninhas
Do jardim que nunca senti o perfume!
Momento XXXI
Fechou-se o livro da história
De um homem
Que deu nome a um nome!
A pia baptismal foi ponto de encontro
De ti, só me lembro de fugidas bençãos
Separadas pelo testemunho
De vidas diferentes!
Em nós
Raiaram mundos diferentes
Fizeram-se viagens vagabundas
Descobriram-se novos caminhos!
Agora, foste ao encontro
Ao ponto de encontro de todo o homem
Terra Mãe do Espírito!
Hoje sobre a Terra Mãe contínuo
Caminhando, caminhos que percorreste!
Hoje!
A fria e escura casa que te deram
Que seja a mais quente e branca
Para tua Alma!
Momentos XXXII
Enquanto os corpos descansam
Golfadas de ar fresco invadem o quarto.
Ambos se olham mirando a distância
Da selvática ternura e do silêncio da noite.
O conquistar o terreno
O cheirar corpo proibido
O sentir ânsia do prazer
O ser mais mudo que a noite
É querer dar e receber
Amor de corpo abandonado!
Momento XXXIII
Todo o homem tem dentro dele
Uma imagem chamada – desejo!
Mas quando o coração sangra
Lágrimas de sangue
Todo o homem tem dentro dele
Uma imagem chamada – pesadelo!
Momento XXXIV
Quando se está só
O corpo sua de lágrimas!
Quando se está só
Procura-se no espaço e no tempo
Alguém que não chega
Alguém que não tenho
Alguém que foge
Alguém que se esconde
Alguém que diz que sente
Alguém que mente
Alguém que é ninguém
Alguém que não é esperança!
Momento XXXV
As rosas sem espinhos
São corpo de mulher despida
Cetim transparente que a veste!
Rosas com espinhos
São corpo de mulher abutre
Que come a carne que me reveste!
Momento XXXVI
O perfume penetrou
Da rosa em segredo
A imagem ficou
A flor em degredo
A mensagem ecoou
Na sala sem medo
A flor comigo ficou
A rosa em segredo!
Momento XXXVII
Durante a noite
Acompanho o silêncio da terra
Os passos perdem-se
Enquanto as pernas se cansam
Ao pássaros abandonam o voar
Os cães a latir para o ar
Sem forças para andar
Procuro encontrar a liberdade de respirar!
Momento XXXVIII
Por terras
Além fronteira escondida
Corpos se esquecem que existem
Estrelas iluminam
Recinto de água quente
Nevoeiro fumegante
De amor morno!
Momento XXXIX
No sereno correr das águas
Desligou-se o dia
Dando lugar a noites perdidas
Nos corpos infiltra-se frescura
Sedentos de dar e receber
Gritos quentes
Nas montanhas perdidas!
Estrelas revoltadas
Rasgam o céu selvaticamente!
Imenso e perdido
O homem sedento
Penetra em corpo esquecido!
Momento XL
O beijo deu lugar ao silêncio
O abraço deu lugar à dor!
O calor da água foi desejo
Desejo de penetrar
Esquecendo o respirar!
No silêncio da noite
Os corpos se abraçaram
Até se esgotarem os músculos
De não mais querer dizer
Ai desejo meu de beijar
Ai desejo meu de abraçar
Ai desejo meu de amar
Ai desejo meu...
Ai desejo meu...
Momento XLI
A cama ao abandono
Do quarto das bonecas
Recolhe corpos cansados!
Beijei boca em silêncio
Afaguei peito acetinado
Ao lado de corpo não amado!
Penetrei em ti em silêncio
No sono sonhado da noite!
Momento XLII
Não comprem amor
Nem minhas palavras gastas!
Acode-me enquanto estou doente
Vou triste por não saber a verdade
De curar tua doença do amor e...
...amizade!
No silêncio e abandono em redoma
Persegue-me a ideia da morte
Irmã minha e da vida!
Persegue-te a ideia de fugires
Serpenteiam-te com palavras
Do chicote que te deram
Das mentiras dos homens...
...que crias-te!
Terra abre tuas entranhas
Abraça-me, conforta-me...
... Abre-me as portas da morte!
Momento XLIII
Planta de meus pés
Corroídos pela terra
Esteios de arame me amparam
Por estas terras de Macedo
Meu povo está triste
Vendo-me partir
As crianças vão deixar
De brincar à minha volta
Os idosos não mais vão ficar
Abrigados na minha sombra
Os olhos dos homens
Não mais me olharão com alegria
Gentes de minha terra
Não façam de minha carne
Tábuas para caixão
Não façam de minha carne
Lenha para fogueiras de fumeiro
Não façam de minha carne
Estátuas ao abandono
Gentes de minha terra
Não façam por terras de Macedo
Chorar os sinos quando cair!
Momento XLIV - LXXXIV
Momento XLIV
A sombra do calor da lareira
A imagem de luz, som e balões
Aquece o canto do sofá!
Á sombra do calor da lareira
As cadeiras esquecidas e abandonadas
Não se mexem silenciadas!
Á sombra do calor da lareira
Lembro o homem esquecido no passeio
Lembro crianças lambuzadas de fome
Que só se recordam do cheiro do seio da mãe!
Á sombra do calor da lareira
Lembro meu dia de Natal
Lembro meu dia triste de alegria
Lembro meu dia de noite e de dia
Lembro o dia em que a luz vi!
Amanhã quando deixar de ser Natal
À sombra do calor da terra
A imagem escura, o silêncio e o vazio
Será o dia de amanhã!
Momento XLV
Quem for gente que atire a primeira pedra
Pedra do chão
Pedra fria
Pedra de mares
Pedra de mármore
Pedra de granito
Pedra de pedra
Pedra de se ver!
Pedra que indique caminhos
Estradas ruas e vielas
Pedra de tempos parados
Pedra de relógio
De horas mortas
Pedra de sopa
De mendigos pobres!
Quem for gente que atire a primeira pedra
À mentira do homem presente!
Momento XLVI
Na terra o cheiro
A terra chora
A água a sorrir devora
Na terra de gente negra
Na terra sem se cansar!
Na terra de gente negra
O silêncio é cortado pelo vento
O milho entalado no alto
No alto da serra corta!
Corta o vento na noite fria
Na terra de gente negra!
Momento XLVII
Num dia, numa noite
Quando de teu ventre saí
Soube que eras minha mãe!
Em teus peitos senti calor
De ti nunca perdi amor
Mesmo criança ladina e danada
Saboreava uma mãe amada!
Quando já grande pronta a partir
Sugava em ti lágrimas a sorrir
Mas um dia sem ti parti!
Não foi adeus
Fui ver o que nunca vi!
Um dia, numa noite
Quando meu ventre senti
Soube que era mãe e venci!
Um dia mãe, teu peito secou
Um dia mãe, teu coração parou!
Mãe, um dia quando partires
Conta-me em segredo tudo o que vires
Mãe, sem ti não vou ficar
Com uma coisa eu fico
Alguém a quem amar
Um dia mãe
Vou sentir o que nunca senti
Alguém que possa amar
Viver o que nunca vivi
Um dia mãe
Feliz vou ser
Ter alguém comigo
A meu lado sofrer
Um dia mãe
Feliz vou ser
Contigo a meu lado
Felicidade beber!
Momento XLVIII
Abram as portas
O poeta quer entrar
Sentem-se as cadeiras
Para o poeta declamar
Silenciem a boca
A loucura das palavras
Dêem ouvidos
Ao poeta e suas lágrimas
Não comam rebuçados ao acaso
Comam livros aos bocados
Não troquem poemas por sono
O poeta é corpo ao abandono!
Abram as portas
Para o poeta descansar!
Abram as portas
Para o poeta descansar!
Momento XLIX
Queria eu que teu dia fosse outro
Dia de Primavera como este meu dia!
Tu, não devias nascer no Inverno
Não pelas flores ou pelo perfume
Mas pela razão de seres mulher!
Momento L
Ferve o tempo no deserto
Neste canto o calor dos homens!
As palavras são ponto de encontro
O sentir da dor é profundo!
O amor e o falar deturpado
É tudo que uma mulher tem no mundo!
Igual a ti não posso ser
Minha sina é mais pobre que a tua!
A dor, sofrimento e a alegria
As palavras de tuas páginas
São medalha de uma vida!
Momento LI
Não quero esquecer
Os dias perdidos vadios
Enquanto fumava
Foste meu ombro arma
Enquanto sofria
Tua porta se abria!
Hoje vadio
Meu corpo pêndulo seguro
Não mais se esquece
Dos dias perdidos!
Momento LII
Nesta terra afogada pelas montanhas
Não quero ferir o silêncio
Não quero acordar
O descanso da terra
Não quero barrar
O caminho dos rebanhos!
Momento LIII
Parto sem asas nem remos
Parto com novas raízes
Parto sem medo dos ventos
Parto sem hora de chegada
Parto com meu corpo vivo
Parto sem ti a meu lado
Momento LIV
Naquela noite
Quando naufragaste!
Ancorei teu corpo
No porto do silêncio
A terra tremeu
Coração parou!
Guindei-te ao deitar
Cheirando água salgada alcoólica!
Confortei meu corpo ao sono
Deixei meu sonho em silêncio!
Momento LV
Não me deixem falar
Minhas palavras são gritos
Meu corpo inquieto
Meu tempo não chega
Fui-me buscar na noite em silêncio!
Adormeci meu corpo
Na cama mal amanhada
Encontrei amor meu
Quando me despi
Acordei só!
Momento LVI
A teu lado vivo
Contigo em sonho
Sonho que parto sem fronteiras
Fronteiras sem fim
Fim que não tem onde parar
Parar sem ter dor
Dor e fome do alimento
Alimento que compartilho
Compartilho o mar e a terra
Terra de dor e faminta
Faminta carne e desejo
Desejo de rasgar teu corpo molhado
Molhado, salgado e brilhante
Brilhante como o Sol
Sol que dá luz e cor ao mar
Mar que não conheço
Mar que não tenho
Mar a que não pertenço!
Momento LVII
Chora tudo de enxurrada
Homem mulher e criança
De corpo alma nua encharcada
De lágrimas salgadas sem esperança
O mar monstro que não sabe perder
Monstro de corpo sem alma
Monstro agitado sem calma!
De braços e barriga para o ar
Acolhedor de tudo que é gente
Destrói mata e afoga tudo sem parar
O mar, estrada molhada de acidentes
Quando pára acolhe-me enquanto criança
Brilho de Sol sem mágoa
Dá-me vida e esperança
Mar, enorme lençol de água!
Momento LVIII
Quantas palavras
Os poetas escrevem
Esquecendo-as em papéis
Abandonando-as em gavetas
Em poemas de silêncio?
Quantas palavras
Adormecem nas mãos dos poetas?
Momento LIX
Ponteiro do relógio
Indica meu silêncio
Atrasa o crescimento
Das raízes da flor colhida!
Cai lentamente a hora
Lentamente secam as raízes
Junto à praia
Silenciada pelo Inverno
Espero que a Primavera
Lentamente venha
Venha regar junto a meus pés!
Momento LX
Minhas lágrimas
Não brotam de meu coração!
Meu velho barco
Carcaça deitada
Se afoga em teu corpo
Neste quarto perto de mim!
Momento LXI
Faltou-me o ar
Quando a janela se abriu!
Vendavais de nervos
Sacodem corpos
Asas de andorinha
Lágrimas de sofrimento
Cara de anjo!
Tudo por pouco se perdia
Quando a janela se abriu!
Momento LXII
O encontro casual na praça
Foi jogo de bola plástica
Foi dança passageira de jardim
Entremeada com sabor a cerveja....
...junto ao rio!
Momento LXIII
A conversa e as apostas sobre a mesa
Ficaram como que um compromisso
Por terras além Gerês!
Voam estrelas cadentes
Corpos entrelaçam-se
Em águas quentes selvagens
Sentem o silêncio
Do rio seco.
O estar aqui foi fome doentia
Curada na sede definhada
De coração retalhado.
O estar aqui
Foi fome sonolenta
Como mãe seu filho amamenta
O estar aqui
É sentir felicidade
É ter amor de verdade!
Momento LXIV
Barco de ossos em terra
Carcaça sem rumo navega
Com leme desorientado
Com vela sem vento
Sem farol em alto mar
Barco de ossos em terra
Terra sem água
Encontra marinheiro perdido!
Momento LXV
O cenário estava montado
Era um monte
Uma pequena elevação
Ao fundo luzes da cidade
Mais a fundo
O mar abraçava a terra!
Árvores e silêncio da noite
Pela noite de hora em hora
As badaladas aumentavam
Mas a noite era fria, muito fria
A meio das badaladas
Descobri teu peito a nu
Estavas quente mais quente que a Lua!
Momento LXVI
Que direito tenho de diferença
Se minha dor é passageira?
Que dirão minhas telas
Se as cores enferrujadas não choram?
Momento LXVII
O dia da liberdade está marcado
Os estandartes estão pintados
As portas
As janelas embandeiradas
As correntes
Os grilhões e os pássaros
Não mais vão voar
Pelo manto que me reveste!
Momento LXVIII
Pescador com sede
Em mar seco
Tem ar sem vento
Vive tempestade poluída
Pesca peixes esquecidos!
Coitado do pescador com rede
Um dia
Lançou-se ao mar em terra
Respirando sem vento
Abraçou tempestade desértica
Pescando peixe esquecido!
Momento LXIX
Tenho palavras gastas
Na mente
Nas lágrimas
No coração
Nas dores
Nos rancores...
Não há olhos para chorar
Não há braços compridos
Para abraçar!
Não há rosas no jardim
Morreram todas comigo
Não há imagens fixas de ti
Não há tempo para as fotografar
Há na parede de meu quarto...
...moldura vazia!
Momento LXX
O silêncio de meu corpo
Parado adormece
Rezo, oro falo em silêncio
Pela noite que me embala!
Momento LXXI
Que espaço procuro?
Que ar respiro?
Que fumo lanço para o ar?
Procuro espaço dentro de ti
Respiro teu ar intoxicado
Lanço para o ar o fumo de meu cigarro!
Momento LXXII
Anonimamente um dia escrevi-te
Queria ter a sensação de estar – Só!
Escrever-te palavras sem sexo
Sentir lágrimas salgando-te a face
Anonimamente faltou-me tua mão
Quente e grande como imaginei!
Momento LXXIII
Nos dias, nas noites
Corre-lhe angústia nas veias!
Cansado das Primaveras
Busco o alívio em vão
Perdido e repartido
Dói coração dividido
Pesa o corpo na terra
Corre angústia nas veias
Todas as noites
Todos os dias!
Momento LXXIV
Não chores no silêncio das palavras
Viola meu silêncio
Dentro de ti
Rasga minhas veias
Mal regadas!
Momento LXXV
Sou a última porta
Do corredor desta vida
Escondido na esquina
Que dobra todos os pensamentos
Que me são vedados!
Momento LXXVI
Meus pés
Ao fim da tarde
Choram ao som da guitarra
Com fome e sede do calor do dia
Que não vejo o respirar
De tua ausência que me dói
A meus pés!
Momento LXXVII
Junto ao mar
Os olhos mudaram de cor!
Junto à terra
O mar deitou-se em silêncio!
Na terra teu corpo
Nasceu para amar!
Momento LXXVIII
Senhores
Estou pronto
Entrem com as armas da liberdade
Arranquem os cravos até às raízes
Algemem os homens do poder
Soltem os novos senhores das prisões
Garrotem meus punhos
Para não mais escrever.
Espalhem meu coração esquartejado
Por telas perdidas no tempo!
Momento LXXIX
Ponteiro do relógio
Indica meu silêncio
Atrasa o crescimento
Das raízes da flor colhida!
Momento LXXX
Desenhas projectos de vida perdida
Moldas barros com labirintos perdidos
Pintas aguarelas sem cores de arco-íris
Violas telas castradas!
Porque o relógio anda devagar
Devagar andas em tempo apressado!
Foste estaca de relógio de Sol
Somente números do tempo perdido
Perdido tempo de vida!
Momento LXXXI
Depois de misturar álcool
De vinho quente
Fumar cigarro emprestado
Cobre corpo com banho quente
Embrulha-se no manto
De cama abandonada!
Momento LXXXII
Quando o homem se perde
Acha-se o caminho
Caminho da noite, noite sem lua
Lua cheia até rebentar
Do homem que...
Não sabe viver sem a primavera.
Momento LXXXIII
Amor não é igual
Ao que tenho dentro de mim
Por dar só recebo
Ar para respirar!
Momento LXXXIV
No regresso da caminhada orada
No silêncio da noite
De chá doce a preceito
Mãos tremiam por caminhos de conforto
Esqueceram-se as horas
Porque os corpos intimamente
Queriam regressar
Na caminhada desencontrada.
A sombra do calor da lareira
A imagem de luz, som e balões
Aquece o canto do sofá!
Á sombra do calor da lareira
As cadeiras esquecidas e abandonadas
Não se mexem silenciadas!
Á sombra do calor da lareira
Lembro o homem esquecido no passeio
Lembro crianças lambuzadas de fome
Que só se recordam do cheiro do seio da mãe!
Á sombra do calor da lareira
Lembro meu dia de Natal
Lembro meu dia triste de alegria
Lembro meu dia de noite e de dia
Lembro o dia em que a luz vi!
Amanhã quando deixar de ser Natal
À sombra do calor da terra
A imagem escura, o silêncio e o vazio
Será o dia de amanhã!
Momento XLV
Quem for gente que atire a primeira pedra
Pedra do chão
Pedra fria
Pedra de mares
Pedra de mármore
Pedra de granito
Pedra de pedra
Pedra de se ver!
Pedra que indique caminhos
Estradas ruas e vielas
Pedra de tempos parados
Pedra de relógio
De horas mortas
Pedra de sopa
De mendigos pobres!
Quem for gente que atire a primeira pedra
À mentira do homem presente!
Momento XLVI
Na terra o cheiro
A terra chora
A água a sorrir devora
Na terra de gente negra
Na terra sem se cansar!
Na terra de gente negra
O silêncio é cortado pelo vento
O milho entalado no alto
No alto da serra corta!
Corta o vento na noite fria
Na terra de gente negra!
Momento XLVII
Num dia, numa noite
Quando de teu ventre saí
Soube que eras minha mãe!
Em teus peitos senti calor
De ti nunca perdi amor
Mesmo criança ladina e danada
Saboreava uma mãe amada!
Quando já grande pronta a partir
Sugava em ti lágrimas a sorrir
Mas um dia sem ti parti!
Não foi adeus
Fui ver o que nunca vi!
Um dia, numa noite
Quando meu ventre senti
Soube que era mãe e venci!
Um dia mãe, teu peito secou
Um dia mãe, teu coração parou!
Mãe, um dia quando partires
Conta-me em segredo tudo o que vires
Mãe, sem ti não vou ficar
Com uma coisa eu fico
Alguém a quem amar
Um dia mãe
Vou sentir o que nunca senti
Alguém que possa amar
Viver o que nunca vivi
Um dia mãe
Feliz vou ser
Ter alguém comigo
A meu lado sofrer
Um dia mãe
Feliz vou ser
Contigo a meu lado
Felicidade beber!
Momento XLVIII
Abram as portas
O poeta quer entrar
Sentem-se as cadeiras
Para o poeta declamar
Silenciem a boca
A loucura das palavras
Dêem ouvidos
Ao poeta e suas lágrimas
Não comam rebuçados ao acaso
Comam livros aos bocados
Não troquem poemas por sono
O poeta é corpo ao abandono!
Abram as portas
Para o poeta descansar!
Abram as portas
Para o poeta descansar!
Momento XLIX
Queria eu que teu dia fosse outro
Dia de Primavera como este meu dia!
Tu, não devias nascer no Inverno
Não pelas flores ou pelo perfume
Mas pela razão de seres mulher!
Momento L
Ferve o tempo no deserto
Neste canto o calor dos homens!
As palavras são ponto de encontro
O sentir da dor é profundo!
O amor e o falar deturpado
É tudo que uma mulher tem no mundo!
Igual a ti não posso ser
Minha sina é mais pobre que a tua!
A dor, sofrimento e a alegria
As palavras de tuas páginas
São medalha de uma vida!
Momento LI
Não quero esquecer
Os dias perdidos vadios
Enquanto fumava
Foste meu ombro arma
Enquanto sofria
Tua porta se abria!
Hoje vadio
Meu corpo pêndulo seguro
Não mais se esquece
Dos dias perdidos!
Momento LII
Nesta terra afogada pelas montanhas
Não quero ferir o silêncio
Não quero acordar
O descanso da terra
Não quero barrar
O caminho dos rebanhos!
Momento LIII
Parto sem asas nem remos
Parto com novas raízes
Parto sem medo dos ventos
Parto sem hora de chegada
Parto com meu corpo vivo
Parto sem ti a meu lado
Momento LIV
Naquela noite
Quando naufragaste!
Ancorei teu corpo
No porto do silêncio
A terra tremeu
Coração parou!
Guindei-te ao deitar
Cheirando água salgada alcoólica!
Confortei meu corpo ao sono
Deixei meu sonho em silêncio!
Momento LV
Não me deixem falar
Minhas palavras são gritos
Meu corpo inquieto
Meu tempo não chega
Fui-me buscar na noite em silêncio!
Adormeci meu corpo
Na cama mal amanhada
Encontrei amor meu
Quando me despi
Acordei só!
Momento LVI
A teu lado vivo
Contigo em sonho
Sonho que parto sem fronteiras
Fronteiras sem fim
Fim que não tem onde parar
Parar sem ter dor
Dor e fome do alimento
Alimento que compartilho
Compartilho o mar e a terra
Terra de dor e faminta
Faminta carne e desejo
Desejo de rasgar teu corpo molhado
Molhado, salgado e brilhante
Brilhante como o Sol
Sol que dá luz e cor ao mar
Mar que não conheço
Mar que não tenho
Mar a que não pertenço!
Momento LVII
Chora tudo de enxurrada
Homem mulher e criança
De corpo alma nua encharcada
De lágrimas salgadas sem esperança
O mar monstro que não sabe perder
Monstro de corpo sem alma
Monstro agitado sem calma!
De braços e barriga para o ar
Acolhedor de tudo que é gente
Destrói mata e afoga tudo sem parar
O mar, estrada molhada de acidentes
Quando pára acolhe-me enquanto criança
Brilho de Sol sem mágoa
Dá-me vida e esperança
Mar, enorme lençol de água!
Momento LVIII
Quantas palavras
Os poetas escrevem
Esquecendo-as em papéis
Abandonando-as em gavetas
Em poemas de silêncio?
Quantas palavras
Adormecem nas mãos dos poetas?
Momento LIX
Ponteiro do relógio
Indica meu silêncio
Atrasa o crescimento
Das raízes da flor colhida!
Cai lentamente a hora
Lentamente secam as raízes
Junto à praia
Silenciada pelo Inverno
Espero que a Primavera
Lentamente venha
Venha regar junto a meus pés!
Momento LX
Minhas lágrimas
Não brotam de meu coração!
Meu velho barco
Carcaça deitada
Se afoga em teu corpo
Neste quarto perto de mim!
Momento LXI
Faltou-me o ar
Quando a janela se abriu!
Vendavais de nervos
Sacodem corpos
Asas de andorinha
Lágrimas de sofrimento
Cara de anjo!
Tudo por pouco se perdia
Quando a janela se abriu!
Momento LXII
O encontro casual na praça
Foi jogo de bola plástica
Foi dança passageira de jardim
Entremeada com sabor a cerveja....
...junto ao rio!
Momento LXIII
A conversa e as apostas sobre a mesa
Ficaram como que um compromisso
Por terras além Gerês!
Voam estrelas cadentes
Corpos entrelaçam-se
Em águas quentes selvagens
Sentem o silêncio
Do rio seco.
O estar aqui foi fome doentia
Curada na sede definhada
De coração retalhado.
O estar aqui
Foi fome sonolenta
Como mãe seu filho amamenta
O estar aqui
É sentir felicidade
É ter amor de verdade!
Momento LXIV
Barco de ossos em terra
Carcaça sem rumo navega
Com leme desorientado
Com vela sem vento
Sem farol em alto mar
Barco de ossos em terra
Terra sem água
Encontra marinheiro perdido!
Momento LXV
O cenário estava montado
Era um monte
Uma pequena elevação
Ao fundo luzes da cidade
Mais a fundo
O mar abraçava a terra!
Árvores e silêncio da noite
Pela noite de hora em hora
As badaladas aumentavam
Mas a noite era fria, muito fria
A meio das badaladas
Descobri teu peito a nu
Estavas quente mais quente que a Lua!
Momento LXVI
Que direito tenho de diferença
Se minha dor é passageira?
Que dirão minhas telas
Se as cores enferrujadas não choram?
Momento LXVII
O dia da liberdade está marcado
Os estandartes estão pintados
As portas
As janelas embandeiradas
As correntes
Os grilhões e os pássaros
Não mais vão voar
Pelo manto que me reveste!
Momento LXVIII
Pescador com sede
Em mar seco
Tem ar sem vento
Vive tempestade poluída
Pesca peixes esquecidos!
Coitado do pescador com rede
Um dia
Lançou-se ao mar em terra
Respirando sem vento
Abraçou tempestade desértica
Pescando peixe esquecido!
Momento LXIX
Tenho palavras gastas
Na mente
Nas lágrimas
No coração
Nas dores
Nos rancores...
Não há olhos para chorar
Não há braços compridos
Para abraçar!
Não há rosas no jardim
Morreram todas comigo
Não há imagens fixas de ti
Não há tempo para as fotografar
Há na parede de meu quarto...
...moldura vazia!
Momento LXX
O silêncio de meu corpo
Parado adormece
Rezo, oro falo em silêncio
Pela noite que me embala!
Momento LXXI
Que espaço procuro?
Que ar respiro?
Que fumo lanço para o ar?
Procuro espaço dentro de ti
Respiro teu ar intoxicado
Lanço para o ar o fumo de meu cigarro!
Momento LXXII
Anonimamente um dia escrevi-te
Queria ter a sensação de estar – Só!
Escrever-te palavras sem sexo
Sentir lágrimas salgando-te a face
Anonimamente faltou-me tua mão
Quente e grande como imaginei!
Momento LXXIII
Nos dias, nas noites
Corre-lhe angústia nas veias!
Cansado das Primaveras
Busco o alívio em vão
Perdido e repartido
Dói coração dividido
Pesa o corpo na terra
Corre angústia nas veias
Todas as noites
Todos os dias!
Momento LXXIV
Não chores no silêncio das palavras
Viola meu silêncio
Dentro de ti
Rasga minhas veias
Mal regadas!
Momento LXXV
Sou a última porta
Do corredor desta vida
Escondido na esquina
Que dobra todos os pensamentos
Que me são vedados!
Momento LXXVI
Meus pés
Ao fim da tarde
Choram ao som da guitarra
Com fome e sede do calor do dia
Que não vejo o respirar
De tua ausência que me dói
A meus pés!
Momento LXXVII
Junto ao mar
Os olhos mudaram de cor!
Junto à terra
O mar deitou-se em silêncio!
Na terra teu corpo
Nasceu para amar!
Momento LXXVIII
Senhores
Estou pronto
Entrem com as armas da liberdade
Arranquem os cravos até às raízes
Algemem os homens do poder
Soltem os novos senhores das prisões
Garrotem meus punhos
Para não mais escrever.
Espalhem meu coração esquartejado
Por telas perdidas no tempo!
Momento LXXIX
Ponteiro do relógio
Indica meu silêncio
Atrasa o crescimento
Das raízes da flor colhida!
Momento LXXX
Desenhas projectos de vida perdida
Moldas barros com labirintos perdidos
Pintas aguarelas sem cores de arco-íris
Violas telas castradas!
Porque o relógio anda devagar
Devagar andas em tempo apressado!
Foste estaca de relógio de Sol
Somente números do tempo perdido
Perdido tempo de vida!
Momento LXXXI
Depois de misturar álcool
De vinho quente
Fumar cigarro emprestado
Cobre corpo com banho quente
Embrulha-se no manto
De cama abandonada!
Momento LXXXII
Quando o homem se perde
Acha-se o caminho
Caminho da noite, noite sem lua
Lua cheia até rebentar
Do homem que...
Não sabe viver sem a primavera.
Momento LXXXIII
Amor não é igual
Ao que tenho dentro de mim
Por dar só recebo
Ar para respirar!
Momento LXXXIV
No regresso da caminhada orada
No silêncio da noite
De chá doce a preceito
Mãos tremiam por caminhos de conforto
Esqueceram-se as horas
Porque os corpos intimamente
Queriam regressar
Na caminhada desencontrada.
Momento LXXXV - CXXIX
Momento LXXXV
Despindo nossos corpos
Despedimo-nos da roupa
Procuramos sensações
De liberdade
De corpos esquecidos.
Momento LXXXVI
Agora estou ocupado contigo
Não atendo telefone
Esqueço as telas as cores
Esqueço o que está esquecido
De corpos passados
E...estou só contigo
Alimentando nossos corpos!
Momento LXXXVII
As noites são ternas e quentes
Corpos passeiam-se na cama
Cama que grita de dor!
Momento LXXXVIII
Corpo deitado
No tapete da sala
Cobre de prazer
Meu ser abandonado!
Lentamente cheirei teu peito
Bebi teus lábios
Banhei-me em teus suores lentamente
Descolamos os corpos
Estendidos no tapete colorido da sala!
Momento LXXXIX
Choras-te comigo ao lado
Na noite em S. Tiago
Com o corpo a sofrer
De amor perdido
De feridas profundas
Sangrando suspiros
Enquanto me abraçavas
Até não mais querer.
A cama não arrefecia
O corpo mais queria
Que não nascesse o dia!
Momento XC
Desesperadamente
Dói-me corpo abandonado
Sinto gelo glaciar
Em coração calor escaldante
Nas mãos impotência a pintar
Na boca desejos de beijar
No teu corpo
Prazer em abraçar!
Momento XCI
Corpo cravejado de pregos
Torce-se de dores como os répteis
Sente o agarrar e o abandono
Como homem sem terra
Quero de ti sentir a árvore
Com as raízes duras de nervos
Ter teu caule
Regar tuas flores
E comer de teu fruto.
Momento XCII
Um dia tentou
Não substituir-te
Mas ter o aconchego
Que nunca chegou
Ou talvez ter um pouco mais.
Perguntei a mim mesmo
Se tal merecia
Mas meu duro coração
Como o teu
E tantos outros
Me disse o que queria.
Só, como o teu e tantos outros
Deus nunca poderia ser terreno
Seria catastrófico
Todas as horas, todos os dias
Em muitos corações.
Virar as costas?
Não!
Mostrar a máscara suja
De instintos e falsas verdades!
Viver como muitos viveram
Entristece a bomba
Que me faz respirar.
Ninguém me vai julgar
Ninguém me vai separar
Nada é pecado
Se no dia do adeus terreno
Eu der a mão ao homem perdido.
Precisei de estar contigo
Para completar tudo que te disse
E muito que não gostas-te.
Precisei de estar com outro
Para lhe dar o que não te dei
Preciso de estar contigo
Porque não quero estar só.
Quando partiste, dei-te as mãos
Estavas frio, se calhar com medo.
Não, não tenhas medo
Medo é pecado na terra
A terra é pecadora.
Obrigado meu pai
Descansa não mais vou procurar
Alguém que tanto queria!
Momento XCIII
Sentado no silêncio
Silencio-me nas palavras
Dos poetas
Sentado no silêncio
Leio palavras gastas de poetas
Encostados nas prateleiras
Poeirentos
Amarrados em teias de aranha.
Guiando meu corpo até ti poeta
Solto-me
Choro
Grito
Por tuas palavras gastas.
Sentado no silêncio
Silêncio minha voz
Meu ser, meu corpo
Pó, células e água!
Momento XCIV
Sinto prazer estranho
Sofrimento em terra mal arada
Pigmento ocre e triste.
Contemplo flores adormecidas
Tragando álcool esquecido
Colorindo cores mortas.
Adormecendo na escuridão da noite
Meu corpo de prazer estranho deita-se
Ao som melancólico de Chopin.
Pinto, grito e suspiro
Meu corpo efervescente
Suspenso no ar.
Momento XCV
A comunicação é muda
Não nos entendemos
É minha companhia
Pobre animal
Enganado de saudades.
Momento XCVI
Sou a última porta
Do corredor da vida
Escondido na esquina
Que dobra todos os pensamentos
Que me são vedados!
Momento XCVII
Junto ao mar
Os olhos mudaram de cor
Junto à Terra
O mar deitou-se em silêncio
Na terra teu corpo
Nasceu para amar!
Momento XCVIII
Viola meu silêncio
Dentro de ti
Rasga minhas veias
Mal regadas
Não chores no silêncio das palavras!
Momento XCIX
Tenho um vapor dentro de mim
Aperta meu corpo no teu silêncio
Nesta angústia perdida!
Momento C
Na noite que saboreei teu corpo
Ressuscitei meu sexo!
Momento CI
Olho
Espreito
Vejo
O Sol
Quente e escaldante
Espelha-se sobre
O lençol cobreado do mar!
Momento CII
Escrevi um livro
Em tela virgem
A história de um inocente
Do homem que por grades passou
Do homem que as cores
Descobriu em vida!
Momento CIII
Corpo de luz
Em noite abandonada
Ai mulher pudesse eu verte
No momento de tua ausência!
Momento CIV
Rasgou-se o manto
Rasgou-se o corpo até ficar nu
Intacto não mais se mexeu
Até eu chegar!
Momento CV
Cristo sem lágrimas
É sofrimento
Queria eu chorar
Para no momento presente
Viver!
Momento CVI
Retalhos de vidas
Cansadas, doridas
Coladas para o espectáculo
Em silêncio
Prendo-as para a vida
Sonhada!
Momento CVII
De canto, espreito
Minha lágrima solta
De canto, espreito
Minha lágrima purificada
Pelas águas do mar!
Momento CVIII
Deixo-te meus lábios
Esperando que violes
Minhas flores
Em meu corpo
Esquecido!
Momento CIX
O Sol aquece a terra
Meu corpo, espírito, minha alma
Sol
Sol
Sol
Porque não vens nas noites de Inverno
Aquecer-me!
Momento CX
Não
Não sei onde estou
Sei que estou descoberto e escondido
Do medo de se tentar ser
Alguém!
Momento CXI
Sou rei
Sou catedrático
Sou Deus dos livros e do diabo
Sou amado e odiado
Sou pedra enferrujada
Pelos tempos!
Momento CXII
A cor
Não existe
Meus olhos viram
Mas esconderam-na
A cor
É ausência presente
Dentro de mim!
Momento CXIII
Fernando
Fernando
Fernando
Fernando
Em Pessoa
– Olá estás bom?
Que queres do Fernando?
– Quero deitar-me ao lado
De tua poesia!
Momento CXIV
Minha cor não tem fim
Faço parte do Mundo
Minha vida não é vazia
Sou presença incómoda
No Universo!
Momento CXV
Esmagada pela pedra
A Natureza sobrevive
Triturada pela guilhotina
As folhas não mais morrerão!
Momento CXVI
O jardim
É a própria orquestra
Em silêncio oiço o cheiro
Das 7 canções
7 sinfonias
Para as noites e os dias!
Momento CXVII
Pedras que suaram
Sangraram
Trabalho de Natureza esmagado!
Agora, saboreio e deito-me
Com as paredes do homem cansado!
Momento CXVIII
Escondo-me de ti
De tudo e de todos
Sou aquilo
Que não queres
Que eu seja
Mágica máscara dentro de ti!
Momento CXIX
Caminho sem fim
Por um fio
Desastre, acrobacia ou suicídio?
Paro para ver se vem alguém
Mas eis que chega o vento
E vivo!
Momento CXX
Em mim já ninguém acredita
Sou velho monumento
Sou pedra rara
Sou depósito
De vidas vividas!
Momento CXXI
Criança do passado
Do presente
Criança do Mundo
De ninguém
Criança parada na história
Criança recriada na vida!
Momento CXXII
A 18 de Agosto acordou o coração
Da Terra, do homem e da mulher!
A 18 de Agosto na mesa redonda
De gostos e prazeres
Dois corações fizeram um pacto!
A 18 de Agosto selaram amizade
De encontros nocturnos sem sexo
De palavras e sentimentos controlados!
Depois de 18 de Agosto
A guerra de palavras começou
Dispararam-se balas
Atiraram-se setas
Soaram canhões ensurdecedores!
Corações tremeram
Porque as palavras electrónicas eram...
...tudo que os ouvidos queriam ouvir
Tudo que os olhos queriam ver
Tudo que a boca queria dizer
Tudo que os braços queriam abraçar!
Depois de 18 de Agosto
Tudo pode acontecer
O Terror, a Angústia, o Medo, o Desejo!
Depois de 18 de Agosto
A Terra, o homem e a mulher
Poderão tremer
Serenamente, sem balas!
sem setas!
sem canhões!
Depois de 18 de Agosto
Tudo pode acontecer
As nuvens de fumo dos canhões
Serão brancas e despidas
As balas, balões de criança
As setas, Indicadoras de perigos e aventuranças
Os canhões, carros de criança!
Depois de 18 de Agosto
Tudo pode acontecer
A paz descerá à Terra!
Depois de 18 de Agosto tudo vai acontecer
A paz descer à terra aos corpos abandonados!
Momento CXXIII
Em 15 dias
Abriste-me as portas de casa
Deste-me a liberdade de violar
Tua intimidade!
Em 15 dias
Sentei-me vários dias olhando-te
Lado a lado em silêncio!
Em 15 dias
Senti calor de tuas mãos
Em minhas células abandonadas!
Em 15 dias
Demos abraços
Tremendo de medos
Corpo a corpo!
Repentinamente
Paramos
Parti no silêncio da noite
Para meu porto!
Em 15 dias
Senti tua presença
Tua face sorrindo
Teu freio controlado de desejos
Teus lábios tremidos
Teu coração suspirando
Chorando de alegria!
Em 15 dias
Que mais queria eu?
Em 15 dias
Curar tuas feridas?
Em 15 dias
Que mais poderei dizer?
Em 15 dias
Digo-te
Senti tua presença
Teus braços
Tua face
Teu freio
Teus lábios
Teu coração suspirando
Por alguém
Que parte no silêncio da noite
Chorando de alegria
Para seu porto!
Depois de 15 dias
Quero cobrir nossas feridas com meu corpo
Quero ressuscitar nossas células
Sentir tua presença
Nossa face sorrindo
Nosso freio controlado de desejos
Nossos lábios tremidos
Nosso coração suspirando
Chorando de alegria!
Depois de 15 dias
Abro-te as portas de meu coração
Dou-te a liberdade de violar
Minha intimidade!
Momento CXXIV
Barco encalhou
Sem eira nem beira
Barco ficou sem rumo!
Comandante ficou despido
Pela tempestade
Barco ficou parado
Tempos sem fim e farol
No porto!
Os Marinheiros desolados
Nunca o abandonaram
Minha vida que lhes pertence!
Manhãs desoladas
Dias e dias a fio
Noites e noites ao frio!
Entretanto, Comandante dormia
Sonhava com a notícia
Do som do farol da praça!
Numa noite, soou a ronca electrónica
Está lá, está gente do outro lado
Do outro lado, disseram – Sim estou aqui
Quero conhecer-te
Nem que seja numa noite de nevoeiro!
O Comandante lá foi
Sem medo das tempestades
Sem medo dos ciclones
Sem medo dos Adamastores
Sem medo de VIVER!
Nas manhãs desoladas
Nos dias e dias a fio
Nas noites e noites ao frio
O Comandante num dia à noite
Aqueceu-se no novo barco!
Atenção, o Comandante tem novo barco
Bonito, belo e moderno!
Baptizou-o e chamou-lhe de – Amélia
Nome de monstruosidade sem membros
Chamou-lhe Amélia, porque...
Ambos não tinham remos
Presos ao estropo
Para remar sem rumo
Da tempestade que os despiu!
Momento CXXV
A Terra acordou
Com vestido transparente
A Terra despiu-se
E ficou quente como teu corpo!
Momento CXXVI
As nuvens choram
Inundam a Terra de lágrimas
Meu corpo a teu lado descansa
Invadem o quarto e a cama
E o corpo e o sexo
Transforma-se em chuva quente!
Momento CXXVII
Nevoeiro cobre a Terra
Como vestido fino
Teu corpo esconde!
A Terra se despe
E fica nua e quente
Como teu corpo!
Momento CXXVIII
Naquela rua que sobe
Há um portão minúsculo
De ferro tubular
De formato quadrado
Anda-se uns metros em cimento cinzento
Do lado direito um muro
Do outro minúsculas plantas selvagens!
Entra-se na porta principal
Sobe-se umas escadas em linha recta
Vira-se ligeiramente à esquerda
E entra-se na segunda porta principal!
Essa porta um dia abriu-se
Com um hall em frente, pequeno
Uma sala à direita com quadros no chão
Uma cozinha à esquerda com sabor a abóbora
E um pátio que até dá para ver
A televisão do vizinho!
Do outro lado da casa
Um corredor e um fio de televisão
Ao fundo à esquerda
Uma pequena sala de arrumos, arrumada
À direita o quarto dos miúdos
Mais à direita o quarto dos grandes
E mais à direita o quarto de banho, completo!
No quarto dos miúdos, há uma janela
Virada para a rua que desce
Naquela rua que desce
Há uma silhueta de alguém
À janela que diz Adeus!
Momento CXXIX
J
Já
Jan
Jane
Janel
Janela
Abre teus peitos de vidro
Tuas ilhargas de luz
Solta os doentes da cama
Dá a rua aos idosos
E flores a crianças sem pai!
Janela
Fecha teus peitos de vidro
Contra minhas paredes
Tua ilharga de luz
A meu corpo
Aquece-me das noites frias!
Despindo nossos corpos
Despedimo-nos da roupa
Procuramos sensações
De liberdade
De corpos esquecidos.
Momento LXXXVI
Agora estou ocupado contigo
Não atendo telefone
Esqueço as telas as cores
Esqueço o que está esquecido
De corpos passados
E...estou só contigo
Alimentando nossos corpos!
Momento LXXXVII
As noites são ternas e quentes
Corpos passeiam-se na cama
Cama que grita de dor!
Momento LXXXVIII
Corpo deitado
No tapete da sala
Cobre de prazer
Meu ser abandonado!
Lentamente cheirei teu peito
Bebi teus lábios
Banhei-me em teus suores lentamente
Descolamos os corpos
Estendidos no tapete colorido da sala!
Momento LXXXIX
Choras-te comigo ao lado
Na noite em S. Tiago
Com o corpo a sofrer
De amor perdido
De feridas profundas
Sangrando suspiros
Enquanto me abraçavas
Até não mais querer.
A cama não arrefecia
O corpo mais queria
Que não nascesse o dia!
Momento XC
Desesperadamente
Dói-me corpo abandonado
Sinto gelo glaciar
Em coração calor escaldante
Nas mãos impotência a pintar
Na boca desejos de beijar
No teu corpo
Prazer em abraçar!
Momento XCI
Corpo cravejado de pregos
Torce-se de dores como os répteis
Sente o agarrar e o abandono
Como homem sem terra
Quero de ti sentir a árvore
Com as raízes duras de nervos
Ter teu caule
Regar tuas flores
E comer de teu fruto.
Momento XCII
Um dia tentou
Não substituir-te
Mas ter o aconchego
Que nunca chegou
Ou talvez ter um pouco mais.
Perguntei a mim mesmo
Se tal merecia
Mas meu duro coração
Como o teu
E tantos outros
Me disse o que queria.
Só, como o teu e tantos outros
Deus nunca poderia ser terreno
Seria catastrófico
Todas as horas, todos os dias
Em muitos corações.
Virar as costas?
Não!
Mostrar a máscara suja
De instintos e falsas verdades!
Viver como muitos viveram
Entristece a bomba
Que me faz respirar.
Ninguém me vai julgar
Ninguém me vai separar
Nada é pecado
Se no dia do adeus terreno
Eu der a mão ao homem perdido.
Precisei de estar contigo
Para completar tudo que te disse
E muito que não gostas-te.
Precisei de estar com outro
Para lhe dar o que não te dei
Preciso de estar contigo
Porque não quero estar só.
Quando partiste, dei-te as mãos
Estavas frio, se calhar com medo.
Não, não tenhas medo
Medo é pecado na terra
A terra é pecadora.
Obrigado meu pai
Descansa não mais vou procurar
Alguém que tanto queria!
Momento XCIII
Sentado no silêncio
Silencio-me nas palavras
Dos poetas
Sentado no silêncio
Leio palavras gastas de poetas
Encostados nas prateleiras
Poeirentos
Amarrados em teias de aranha.
Guiando meu corpo até ti poeta
Solto-me
Choro
Grito
Por tuas palavras gastas.
Sentado no silêncio
Silêncio minha voz
Meu ser, meu corpo
Pó, células e água!
Momento XCIV
Sinto prazer estranho
Sofrimento em terra mal arada
Pigmento ocre e triste.
Contemplo flores adormecidas
Tragando álcool esquecido
Colorindo cores mortas.
Adormecendo na escuridão da noite
Meu corpo de prazer estranho deita-se
Ao som melancólico de Chopin.
Pinto, grito e suspiro
Meu corpo efervescente
Suspenso no ar.
Momento XCV
A comunicação é muda
Não nos entendemos
É minha companhia
Pobre animal
Enganado de saudades.
Momento XCVI
Sou a última porta
Do corredor da vida
Escondido na esquina
Que dobra todos os pensamentos
Que me são vedados!
Momento XCVII
Junto ao mar
Os olhos mudaram de cor
Junto à Terra
O mar deitou-se em silêncio
Na terra teu corpo
Nasceu para amar!
Momento XCVIII
Viola meu silêncio
Dentro de ti
Rasga minhas veias
Mal regadas
Não chores no silêncio das palavras!
Momento XCIX
Tenho um vapor dentro de mim
Aperta meu corpo no teu silêncio
Nesta angústia perdida!
Momento C
Na noite que saboreei teu corpo
Ressuscitei meu sexo!
Momento CI
Olho
Espreito
Vejo
O Sol
Quente e escaldante
Espelha-se sobre
O lençol cobreado do mar!
Momento CII
Escrevi um livro
Em tela virgem
A história de um inocente
Do homem que por grades passou
Do homem que as cores
Descobriu em vida!
Momento CIII
Corpo de luz
Em noite abandonada
Ai mulher pudesse eu verte
No momento de tua ausência!
Momento CIV
Rasgou-se o manto
Rasgou-se o corpo até ficar nu
Intacto não mais se mexeu
Até eu chegar!
Momento CV
Cristo sem lágrimas
É sofrimento
Queria eu chorar
Para no momento presente
Viver!
Momento CVI
Retalhos de vidas
Cansadas, doridas
Coladas para o espectáculo
Em silêncio
Prendo-as para a vida
Sonhada!
Momento CVII
De canto, espreito
Minha lágrima solta
De canto, espreito
Minha lágrima purificada
Pelas águas do mar!
Momento CVIII
Deixo-te meus lábios
Esperando que violes
Minhas flores
Em meu corpo
Esquecido!
Momento CIX
O Sol aquece a terra
Meu corpo, espírito, minha alma
Sol
Sol
Sol
Porque não vens nas noites de Inverno
Aquecer-me!
Momento CX
Não
Não sei onde estou
Sei que estou descoberto e escondido
Do medo de se tentar ser
Alguém!
Momento CXI
Sou rei
Sou catedrático
Sou Deus dos livros e do diabo
Sou amado e odiado
Sou pedra enferrujada
Pelos tempos!
Momento CXII
A cor
Não existe
Meus olhos viram
Mas esconderam-na
A cor
É ausência presente
Dentro de mim!
Momento CXIII
Fernando
Fernando
Fernando
Fernando
Em Pessoa
– Olá estás bom?
Que queres do Fernando?
– Quero deitar-me ao lado
De tua poesia!
Momento CXIV
Minha cor não tem fim
Faço parte do Mundo
Minha vida não é vazia
Sou presença incómoda
No Universo!
Momento CXV
Esmagada pela pedra
A Natureza sobrevive
Triturada pela guilhotina
As folhas não mais morrerão!
Momento CXVI
O jardim
É a própria orquestra
Em silêncio oiço o cheiro
Das 7 canções
7 sinfonias
Para as noites e os dias!
Momento CXVII
Pedras que suaram
Sangraram
Trabalho de Natureza esmagado!
Agora, saboreio e deito-me
Com as paredes do homem cansado!
Momento CXVIII
Escondo-me de ti
De tudo e de todos
Sou aquilo
Que não queres
Que eu seja
Mágica máscara dentro de ti!
Momento CXIX
Caminho sem fim
Por um fio
Desastre, acrobacia ou suicídio?
Paro para ver se vem alguém
Mas eis que chega o vento
E vivo!
Momento CXX
Em mim já ninguém acredita
Sou velho monumento
Sou pedra rara
Sou depósito
De vidas vividas!
Momento CXXI
Criança do passado
Do presente
Criança do Mundo
De ninguém
Criança parada na história
Criança recriada na vida!
Momento CXXII
A 18 de Agosto acordou o coração
Da Terra, do homem e da mulher!
A 18 de Agosto na mesa redonda
De gostos e prazeres
Dois corações fizeram um pacto!
A 18 de Agosto selaram amizade
De encontros nocturnos sem sexo
De palavras e sentimentos controlados!
Depois de 18 de Agosto
A guerra de palavras começou
Dispararam-se balas
Atiraram-se setas
Soaram canhões ensurdecedores!
Corações tremeram
Porque as palavras electrónicas eram...
...tudo que os ouvidos queriam ouvir
Tudo que os olhos queriam ver
Tudo que a boca queria dizer
Tudo que os braços queriam abraçar!
Depois de 18 de Agosto
Tudo pode acontecer
O Terror, a Angústia, o Medo, o Desejo!
Depois de 18 de Agosto
A Terra, o homem e a mulher
Poderão tremer
Serenamente, sem balas!
sem setas!
sem canhões!
Depois de 18 de Agosto
Tudo pode acontecer
As nuvens de fumo dos canhões
Serão brancas e despidas
As balas, balões de criança
As setas, Indicadoras de perigos e aventuranças
Os canhões, carros de criança!
Depois de 18 de Agosto
Tudo pode acontecer
A paz descerá à Terra!
Depois de 18 de Agosto tudo vai acontecer
A paz descer à terra aos corpos abandonados!
Momento CXXIII
Em 15 dias
Abriste-me as portas de casa
Deste-me a liberdade de violar
Tua intimidade!
Em 15 dias
Sentei-me vários dias olhando-te
Lado a lado em silêncio!
Em 15 dias
Senti calor de tuas mãos
Em minhas células abandonadas!
Em 15 dias
Demos abraços
Tremendo de medos
Corpo a corpo!
Repentinamente
Paramos
Parti no silêncio da noite
Para meu porto!
Em 15 dias
Senti tua presença
Tua face sorrindo
Teu freio controlado de desejos
Teus lábios tremidos
Teu coração suspirando
Chorando de alegria!
Em 15 dias
Que mais queria eu?
Em 15 dias
Curar tuas feridas?
Em 15 dias
Que mais poderei dizer?
Em 15 dias
Digo-te
Senti tua presença
Teus braços
Tua face
Teu freio
Teus lábios
Teu coração suspirando
Por alguém
Que parte no silêncio da noite
Chorando de alegria
Para seu porto!
Depois de 15 dias
Quero cobrir nossas feridas com meu corpo
Quero ressuscitar nossas células
Sentir tua presença
Nossa face sorrindo
Nosso freio controlado de desejos
Nossos lábios tremidos
Nosso coração suspirando
Chorando de alegria!
Depois de 15 dias
Abro-te as portas de meu coração
Dou-te a liberdade de violar
Minha intimidade!
Momento CXXIV
Barco encalhou
Sem eira nem beira
Barco ficou sem rumo!
Comandante ficou despido
Pela tempestade
Barco ficou parado
Tempos sem fim e farol
No porto!
Os Marinheiros desolados
Nunca o abandonaram
Minha vida que lhes pertence!
Manhãs desoladas
Dias e dias a fio
Noites e noites ao frio!
Entretanto, Comandante dormia
Sonhava com a notícia
Do som do farol da praça!
Numa noite, soou a ronca electrónica
Está lá, está gente do outro lado
Do outro lado, disseram – Sim estou aqui
Quero conhecer-te
Nem que seja numa noite de nevoeiro!
O Comandante lá foi
Sem medo das tempestades
Sem medo dos ciclones
Sem medo dos Adamastores
Sem medo de VIVER!
Nas manhãs desoladas
Nos dias e dias a fio
Nas noites e noites ao frio
O Comandante num dia à noite
Aqueceu-se no novo barco!
Atenção, o Comandante tem novo barco
Bonito, belo e moderno!
Baptizou-o e chamou-lhe de – Amélia
Nome de monstruosidade sem membros
Chamou-lhe Amélia, porque...
Ambos não tinham remos
Presos ao estropo
Para remar sem rumo
Da tempestade que os despiu!
Momento CXXV
A Terra acordou
Com vestido transparente
A Terra despiu-se
E ficou quente como teu corpo!
Momento CXXVI
As nuvens choram
Inundam a Terra de lágrimas
Meu corpo a teu lado descansa
Invadem o quarto e a cama
E o corpo e o sexo
Transforma-se em chuva quente!
Momento CXXVII
Nevoeiro cobre a Terra
Como vestido fino
Teu corpo esconde!
A Terra se despe
E fica nua e quente
Como teu corpo!
Momento CXXVIII
Naquela rua que sobe
Há um portão minúsculo
De ferro tubular
De formato quadrado
Anda-se uns metros em cimento cinzento
Do lado direito um muro
Do outro minúsculas plantas selvagens!
Entra-se na porta principal
Sobe-se umas escadas em linha recta
Vira-se ligeiramente à esquerda
E entra-se na segunda porta principal!
Essa porta um dia abriu-se
Com um hall em frente, pequeno
Uma sala à direita com quadros no chão
Uma cozinha à esquerda com sabor a abóbora
E um pátio que até dá para ver
A televisão do vizinho!
Do outro lado da casa
Um corredor e um fio de televisão
Ao fundo à esquerda
Uma pequena sala de arrumos, arrumada
À direita o quarto dos miúdos
Mais à direita o quarto dos grandes
E mais à direita o quarto de banho, completo!
No quarto dos miúdos, há uma janela
Virada para a rua que desce
Naquela rua que desce
Há uma silhueta de alguém
À janela que diz Adeus!
Momento CXXIX
J
Já
Jan
Jane
Janel
Janela
Abre teus peitos de vidro
Tuas ilhargas de luz
Solta os doentes da cama
Dá a rua aos idosos
E flores a crianças sem pai!
Janela
Fecha teus peitos de vidro
Contra minhas paredes
Tua ilharga de luz
A meu corpo
Aquece-me das noites frias!
Momento CXXX - CLXXV
Momento CXXX
O gato lá estava
O cão estava lá
A velhinha lambuzada
Via a rusga a passar
O S. João e o menino feliz
A gente, as gentes e o povo
Com a cidreira e alho porro
Martelava quem passava!
A noite era quente
De luz e gente que não pousava
Como a velhinha lambuzada
Como o gato lá estava
Como o cão estava lá
Sobre a janela de minha vizinha!
Momento CXXXI
Não sei quantas janelas tive
Não sei quantas janelas tenho na vida!
Desde a janela do útero de minha mãe
Subi, desci muitas escadas
Andei por corredores!
Já tive janelas viradas para o campo
Para o mar, para o rio
Para as montanhas
Mas nunca janela como o útero de minha mãe!
Quando por aí espreitei
Sobre ela me debrucei.
Chorei tanto, tanto no seu beiral de leite
Que hoje não tenho lágrimas
Para chorar as janelas abandonadas!
Tive janelas com gatos
Janelas com cães
Com periquitos
Tive janelas com vasos
Janelas de ferro
De madeira
Janelas com vidro
Mas nunca janela como o útero de minha mãe!
Hoje não tenho janelas viradas para lado nenhum
Tenho uma parede que me ampara
Um postigo virado para o céu
Em direcção da janela do útero de minha mãe!
Momento CXXXII
Gostava de ter meu corpo
Estendido a teu lado
Esconder meus segredos
De desejos!
Gostava de ter meu corpo
Estendido a teu lado
Partilhar meus segredos
De desejos!
Gostava de ter teu corpo
Estendido a meu lado
Esconder e partilhar teus segredos
De desejos!
Momento CXXXIII
Não me deixem só
A pensar na dor
Do peso do corpo!
Momento CXXXIV
Imagem hirta, erecta como uma bandeira
Figura principal num jardim de sala!
A visita não a incomodou
A cor dos cabelos brancos não mudou
Meu coração mal batido chorou!
Mulher de lugar comum
Algures do Alentejo verde perdido
Sentada no sofá, meu espírito violou!
Era noite nortenha, algures à beira-mar
Era noite fria... mas no jardim daquela sala
Raiava um Sol nocturno
Raiou luz dentro de mim
No beijo de minhas mãos!
Momento CXXXV
Naquele barco encalhado em terra
De pedra, massa, ferro e vidro
A serenidade é constante!
Os passageiros entram e saem
Supervisionados pelo Capitão, Bombom!
Naquele barco encalhado em terra
Por vezes a lua afoga-se na linha do horizonte
Ilumina corpo abandonado
Dá calor a coração parado!
Através da escotilha
Espera a hora na madrugada em silêncio
Ouve o gemer das ondas
Vê a luz da noite
Sente o calor dos raios lunares
Em seu corpo
Naquele barco encalhado em terra!
Momento CXXXVI
Mãe, podes dormir para sempre
Mas teus beijos
Sorrisos
Abraços
Lágrimas e recordações
Ficam gravados dentro de mim
Em meu coração abandonado!
Momento CXXXVII
A vontade e a força de viver é tanta
Que suas mãos me algemaram
Seus braços me ataram
Meu corpo acorrentou
Como tentáculos de polvo!
Ai se ela pudesse falar
Ai se eu pudesse ficar
Ai se ela pudesse viver
A meu lado como um filho
Que perdeu a meio da vida!
Momento CXXXVIII
Meu jardim é enorme
Mas só tem duas flores!
Meu jardim não é enorme
Afinal tenho dois pequenos jardins!
Tenho um jardim enorme virado para a rua
Tenho outro jardim enorme virado para o mar!
Entre os dois jardins
Tenho uma enorme avenida!
Num jardim tenho uma flor
Noutro jardim, outra flor!
Meu jardim é enorme
Afinal tenho três jardins
Mas um a vida deserdou-me!
Afinal só tenho um jardim
Com duas flores!
Com duas flores
Tenho um enorme jardim!
Momento CXXXIX
Há fogo
Há fogo dentro de mim!
Dentro de mim há labaredas
Labaredas que me queimam!
Queimam carne e ossos
Caem como cinzas de meu cigarro
Cigarro mal apagado
Apagado como meu coração esquecido!
Momento CXL
Meu nome
Está em todos os jardins
Jardins de rua, jardins de casa!
Meu nome
Está em todos os vasos
Vasos de sala, vasos de varanda!
Meu nome
É alegria e tristeza
Enfeita festas e funerais!
Meu nome é tudo que tenho
Meu nome só não tem
Alma que regue meu coração!
Momento CXLI
Minha ilha é deserta
Meu deserto é silêncio da noite!
À noite quando me deito
Deito-me com meu amante de palavras!
Palavras que não são silêncio
Quando minha ilha desperta!
Desperto com meu amante
Amante que não tem corpo meu!
De mim só tem
Deserto no luar!
Momento CXLII
As minhas cores
Não têm cor!
A minha idade
Não tem data!
Meu corpo
Não tem dono!
Minhas cores
Minha idade
Meu corpo
São semente de minha mãe!
Momento CXLIII
Não condenem meu olhar
Não silenciem minha timidez
Talvez queira sentir o amar
Se calhar mais uma vez!
Olho com desejo cauteloso
Percebo a mensagem recebida
Ouço meu coração teimoso
Quero ser recebida!
Não, hoje não
Há tempo para pensar
Talvez minha mão
Te irá acariciar!
Não, não é que não tenha tempo
Olho para mim sozinha
Amanhã haverá outro momento
Meu corpo e vida é minha!
Momento CXLIV
Estou dividida
Entre corpo e espírito!
Estou dividida
Entre dar e receber!
Estou dividida
Entre beijar e abraçar!
Estou dividida
Não sei como multiplicar
Meu corpo com o teu!
Estou dividida
Não sei como somar
Meu desejo com o teu!
Estou dividido
Se subtrair
Fico sem ti!
Momento CXLV
Não quero um abraço em vão
Quero uma noite em segredo!
Quero que a noite silencie o dia
Quero que o segredo seja dos corpos esquecidos
Quero que as mãos não batam palmas
Quero que os olhos se fechem cegamente
Quero que as bocas se silenciem em beijos
Quero que os ouvidos não ouçam
O gemer de corpos abandonados!
Não quero um abraço em vão
Quero uma noite em segredo!
Momento CXLVI
Enquanto dormes com teu amante de palavras
Estou com minhas palavras como amante!
Penso em como será o dia de amanhã
O dia de depois de amanhã
O dia daqui a uma semana
O dia daqui a um mês
O dia daqui a um ano!
Estou pensando em como será possível
Seres minha amante de palavras
Minhas palavras serem teu amante!
Momento CXLVII
Toda a noite
Toda a noite
Ouvi a ronca a gritar enquanto
No atelier as cores me iluminaram!
Toda a noite
Toda a noite
Pensava para que lado dormias
Com teu amante de palavras!
Toda a noite
Toda a noite
Cansado de corpo frio
Pensava no calor do teu dormir!
Toda a noite
Toda a noite!
Momento CXLVIII
Deixa-me estar contigo
No silêncio de lua cheia!
Deixa-me estar contigo
Aquecer meu coração da luz lunar!
Deixa-me estar contigo
Sentir o cheiro do mar!
Deixa-me estar contigo
Sem nos tocar-mos!
Deixa-me estar contigo
No teu barco encalhado em terra!
Momento CXLIX
Vou fumar último cigarro da madrugada
Vou banhar-me em chuveiro quente
Vou acariciar meu corpo suado
Vou sentir peso leve de cansaço
Vou regressar ao ponto de partida!
Ver teus olhos e sorrisos de alegria
Ver teu corpo de desejos
Vou fumar último cigarro da madrugada!
Momento CL
Enquanto a água corre
As árvores não morrem
As folhas ressuscitam!
Momento CLI
Era vermelho
Não era cor de bandeira
Não tinha heráldicas
Nem armas nem brasões
Tinha rosas estampadas
De verde pálido!
Era leve, transparente e perfumado
Aconchego de teu corpo abandonado
Em flor!
Momento CLII
De ti, tenho o abraço
Que minha mãe não tem!
De ti, tenho o beijo
Que meu pai não partilha!
De ti tenho o calor
Em meu corpo frio e inerte!
Momento CLIII
Não mereço
Ser somente pó
Hoje não esqueço
Que não estou só.
Hoje queria ser diferente
Por isso estou a teu lado
Hoje arde-me a mente
Meu coração suado.
Renasci neste espaço
No dia e hora que te vi
Contigo a união é um laço
Neste dia que te conheci.
Obrigado jardim em flor
Rego meu coração e alegria
Em meu peito sinto calor
No nascer novo dia.
Momento CLIV
Pegadas na areia
Indicam meu silêncio
De tuas raízes, flor colhida!
Cai lentamente a hora
Lentamente se apagam as pegadas
Junto à praia!
Silenciado pelo frio de Outono
Espero que a Primavera
Lentamente venha
Regar meu corpo abandonado!
Momento CLV
Areia seca, muro quente
Palco e bastidores em silêncio
Somente o mar iluminado e calmo
Numa pequena praia abandonada!
Momento CLVI
Sou o Anjo das Montanhas
Vestido de vermelho
Contrariando os verdes da montanha azul!
Minhas asas cor de terra
Terra que me irá cobrir
Cobrir até reencarnar!
Momento CLVII
Minha posição de espera
Teu braço tentando agarrar-me!
Espera de quê?
Agarrar o quê?
Não, dá-me o que me tiras-te
Deixaste-me nu, descarnaste-me carregando pedras
Mas minhas asas não caíram
Lençol azul que me cobre protege-me junto ao mar
Mar onde quero ficar e amar!
Momento CLVIII
Estou alerta
Estou atento
Espero
Sofro desesperado!
Sim sou verde por fora
Branco e virgem por dentro
Esperando por teu corpo abandonado!
Momento CLIX
Tudo que falamos
Tudo que fizemos
Tudo que era segredo
Está guardado em minhas asas!
Mas tudo se desfez
Se calhar o segredo era falso
Se calhar alguém roubou nossas chaves
Se calhar alguém quer roubar-te
Cuidado, podem violar-te
E ferir teu coração!
Tudo que falamos
Tudo que fizemos
Tudo era segredo
Segredo guardado em minhas asas!
Momento CLX
O muro e a areia da praia
Era quente nas noites de Verão
As estrelas cintilavam
As luzes dos barcos movimentavam-se inquietas
As pegadas das gaivotas
Deixavam andamentos desordenados
Que ainda hoje estão gravadas
No muro e na areia da praia
Nas noites quentes de Verão!
Momento CLXI
Quando de deitas-te em meu colo
As ondas do mar serenaram
Silenciei meu respirar
Para sentir teu descanso!
Momento CLXII
Por esta terra passei
Junto ao mar ancorei
A teu lado me dei
Perdendo tudo que conquistei!
Esse mesmo sou eu
Dei tudo que era meu
Quero o coração que é teu!
Momento CLXIII
Foste meu Anjo da Guarda
Acudiste-me quase de madrugada
Com pedra nas costas pesada
Por outra expulsada
Foste borboleta amada
Por alguém abandonada
Durante anos enganada!
Momento CLXIV
Quando as mãos se deram
As pedras da praia não fugiram
Deixaram-se adormecidas na areia!
Quando as duas mãos se desapertaram
No final das escadas
As mãos ficaram suadas
Como naquela noite de Verão!
Momento CLXV
Abriram-me a porta
Subi pelo elevador
Entrei noutra porta
E sentei-me no sofá à beira-mar
Admirando a serenidade e rebeldia do mar
Como fruto lindo da Natureza!
Momento CLXVI
Não vi teu corpo de prazeres
Numa noite enquanto de despias
Senti o acetinado da roupa, mais colada ao corpo
Vi a cor, vermelho abandonado
Vi desenhos que mais parecia um jardim
Plantado mas não regado
Em corpo abandonado!
Momento CLXVII
Não, não, não, não
Não mais persigas
Minhas longas Primaveras
Preciso de descanso
Recolhe-te no ventre de tua mãe
Abraça corpo de tua mulher se a amas!
Não fujas do pecado
Rasga teu corpo
Castra teu sexo
Mas não mais persigas
Minhas longas Primaveras!
Um dia podemo-nos encontrar
Noutro lugar muito distante
Se calhar no julgamento Celestial!
Aí até tuas flores vão chorar
Aí até tuas flores te irão julgar
Aí contínuo a ter minhas longas Primaveras
Frescas, viçosas
Aí vais ter remorsos
Quando colheres de novo
No útero de tua Mãe!
Momento CLXVIII
Levem-me, mas não me deixem
tratem-me com a dignidade da morte
Morte que vive quando nascemos!
Momento CLXIX
Os corpos saboreiam a dança
A dança despe nossos corpos
Corpos de desejo que se entrelaçam!
Momento CLXX
A luz da vela apagou-se
O perfume do frasco evaporou-se
Ficou a imagem fotográfica das recordações!
Momento CLXXI
Voam as cores no espaço
Paleta nua parada
Na hora do descanso!
Momento CLXXII
Pequenina como se a Santa fosse grande
Grande é a Santa Natureza
Que nos despe e nos mata no alto mar!
Momento CLXXIII
Na impotência do homem
Solitário na selva, selvagem
Bruto, gigante e meigo!
Momento CLXXIV
Guarda-chuva, guarda-sol
Sombrinha que abriga
Imagem parada no espírito!
Momento CLXXV
Labaredas, fogo, artifício de cor
Cor que não queima
Alma arrefecida!
O gato lá estava
O cão estava lá
A velhinha lambuzada
Via a rusga a passar
O S. João e o menino feliz
A gente, as gentes e o povo
Com a cidreira e alho porro
Martelava quem passava!
A noite era quente
De luz e gente que não pousava
Como a velhinha lambuzada
Como o gato lá estava
Como o cão estava lá
Sobre a janela de minha vizinha!
Momento CXXXI
Não sei quantas janelas tive
Não sei quantas janelas tenho na vida!
Desde a janela do útero de minha mãe
Subi, desci muitas escadas
Andei por corredores!
Já tive janelas viradas para o campo
Para o mar, para o rio
Para as montanhas
Mas nunca janela como o útero de minha mãe!
Quando por aí espreitei
Sobre ela me debrucei.
Chorei tanto, tanto no seu beiral de leite
Que hoje não tenho lágrimas
Para chorar as janelas abandonadas!
Tive janelas com gatos
Janelas com cães
Com periquitos
Tive janelas com vasos
Janelas de ferro
De madeira
Janelas com vidro
Mas nunca janela como o útero de minha mãe!
Hoje não tenho janelas viradas para lado nenhum
Tenho uma parede que me ampara
Um postigo virado para o céu
Em direcção da janela do útero de minha mãe!
Momento CXXXII
Gostava de ter meu corpo
Estendido a teu lado
Esconder meus segredos
De desejos!
Gostava de ter meu corpo
Estendido a teu lado
Partilhar meus segredos
De desejos!
Gostava de ter teu corpo
Estendido a meu lado
Esconder e partilhar teus segredos
De desejos!
Momento CXXXIII
Não me deixem só
A pensar na dor
Do peso do corpo!
Momento CXXXIV
Imagem hirta, erecta como uma bandeira
Figura principal num jardim de sala!
A visita não a incomodou
A cor dos cabelos brancos não mudou
Meu coração mal batido chorou!
Mulher de lugar comum
Algures do Alentejo verde perdido
Sentada no sofá, meu espírito violou!
Era noite nortenha, algures à beira-mar
Era noite fria... mas no jardim daquela sala
Raiava um Sol nocturno
Raiou luz dentro de mim
No beijo de minhas mãos!
Momento CXXXV
Naquele barco encalhado em terra
De pedra, massa, ferro e vidro
A serenidade é constante!
Os passageiros entram e saem
Supervisionados pelo Capitão, Bombom!
Naquele barco encalhado em terra
Por vezes a lua afoga-se na linha do horizonte
Ilumina corpo abandonado
Dá calor a coração parado!
Através da escotilha
Espera a hora na madrugada em silêncio
Ouve o gemer das ondas
Vê a luz da noite
Sente o calor dos raios lunares
Em seu corpo
Naquele barco encalhado em terra!
Momento CXXXVI
Mãe, podes dormir para sempre
Mas teus beijos
Sorrisos
Abraços
Lágrimas e recordações
Ficam gravados dentro de mim
Em meu coração abandonado!
Momento CXXXVII
A vontade e a força de viver é tanta
Que suas mãos me algemaram
Seus braços me ataram
Meu corpo acorrentou
Como tentáculos de polvo!
Ai se ela pudesse falar
Ai se eu pudesse ficar
Ai se ela pudesse viver
A meu lado como um filho
Que perdeu a meio da vida!
Momento CXXXVIII
Meu jardim é enorme
Mas só tem duas flores!
Meu jardim não é enorme
Afinal tenho dois pequenos jardins!
Tenho um jardim enorme virado para a rua
Tenho outro jardim enorme virado para o mar!
Entre os dois jardins
Tenho uma enorme avenida!
Num jardim tenho uma flor
Noutro jardim, outra flor!
Meu jardim é enorme
Afinal tenho três jardins
Mas um a vida deserdou-me!
Afinal só tenho um jardim
Com duas flores!
Com duas flores
Tenho um enorme jardim!
Momento CXXXIX
Há fogo
Há fogo dentro de mim!
Dentro de mim há labaredas
Labaredas que me queimam!
Queimam carne e ossos
Caem como cinzas de meu cigarro
Cigarro mal apagado
Apagado como meu coração esquecido!
Momento CXL
Meu nome
Está em todos os jardins
Jardins de rua, jardins de casa!
Meu nome
Está em todos os vasos
Vasos de sala, vasos de varanda!
Meu nome
É alegria e tristeza
Enfeita festas e funerais!
Meu nome é tudo que tenho
Meu nome só não tem
Alma que regue meu coração!
Momento CXLI
Minha ilha é deserta
Meu deserto é silêncio da noite!
À noite quando me deito
Deito-me com meu amante de palavras!
Palavras que não são silêncio
Quando minha ilha desperta!
Desperto com meu amante
Amante que não tem corpo meu!
De mim só tem
Deserto no luar!
Momento CXLII
As minhas cores
Não têm cor!
A minha idade
Não tem data!
Meu corpo
Não tem dono!
Minhas cores
Minha idade
Meu corpo
São semente de minha mãe!
Momento CXLIII
Não condenem meu olhar
Não silenciem minha timidez
Talvez queira sentir o amar
Se calhar mais uma vez!
Olho com desejo cauteloso
Percebo a mensagem recebida
Ouço meu coração teimoso
Quero ser recebida!
Não, hoje não
Há tempo para pensar
Talvez minha mão
Te irá acariciar!
Não, não é que não tenha tempo
Olho para mim sozinha
Amanhã haverá outro momento
Meu corpo e vida é minha!
Momento CXLIV
Estou dividida
Entre corpo e espírito!
Estou dividida
Entre dar e receber!
Estou dividida
Entre beijar e abraçar!
Estou dividida
Não sei como multiplicar
Meu corpo com o teu!
Estou dividida
Não sei como somar
Meu desejo com o teu!
Estou dividido
Se subtrair
Fico sem ti!
Momento CXLV
Não quero um abraço em vão
Quero uma noite em segredo!
Quero que a noite silencie o dia
Quero que o segredo seja dos corpos esquecidos
Quero que as mãos não batam palmas
Quero que os olhos se fechem cegamente
Quero que as bocas se silenciem em beijos
Quero que os ouvidos não ouçam
O gemer de corpos abandonados!
Não quero um abraço em vão
Quero uma noite em segredo!
Momento CXLVI
Enquanto dormes com teu amante de palavras
Estou com minhas palavras como amante!
Penso em como será o dia de amanhã
O dia de depois de amanhã
O dia daqui a uma semana
O dia daqui a um mês
O dia daqui a um ano!
Estou pensando em como será possível
Seres minha amante de palavras
Minhas palavras serem teu amante!
Momento CXLVII
Toda a noite
Toda a noite
Ouvi a ronca a gritar enquanto
No atelier as cores me iluminaram!
Toda a noite
Toda a noite
Pensava para que lado dormias
Com teu amante de palavras!
Toda a noite
Toda a noite
Cansado de corpo frio
Pensava no calor do teu dormir!
Toda a noite
Toda a noite!
Momento CXLVIII
Deixa-me estar contigo
No silêncio de lua cheia!
Deixa-me estar contigo
Aquecer meu coração da luz lunar!
Deixa-me estar contigo
Sentir o cheiro do mar!
Deixa-me estar contigo
Sem nos tocar-mos!
Deixa-me estar contigo
No teu barco encalhado em terra!
Momento CXLIX
Vou fumar último cigarro da madrugada
Vou banhar-me em chuveiro quente
Vou acariciar meu corpo suado
Vou sentir peso leve de cansaço
Vou regressar ao ponto de partida!
Ver teus olhos e sorrisos de alegria
Ver teu corpo de desejos
Vou fumar último cigarro da madrugada!
Momento CL
Enquanto a água corre
As árvores não morrem
As folhas ressuscitam!
Momento CLI
Era vermelho
Não era cor de bandeira
Não tinha heráldicas
Nem armas nem brasões
Tinha rosas estampadas
De verde pálido!
Era leve, transparente e perfumado
Aconchego de teu corpo abandonado
Em flor!
Momento CLII
De ti, tenho o abraço
Que minha mãe não tem!
De ti, tenho o beijo
Que meu pai não partilha!
De ti tenho o calor
Em meu corpo frio e inerte!
Momento CLIII
Não mereço
Ser somente pó
Hoje não esqueço
Que não estou só.
Hoje queria ser diferente
Por isso estou a teu lado
Hoje arde-me a mente
Meu coração suado.
Renasci neste espaço
No dia e hora que te vi
Contigo a união é um laço
Neste dia que te conheci.
Obrigado jardim em flor
Rego meu coração e alegria
Em meu peito sinto calor
No nascer novo dia.
Momento CLIV
Pegadas na areia
Indicam meu silêncio
De tuas raízes, flor colhida!
Cai lentamente a hora
Lentamente se apagam as pegadas
Junto à praia!
Silenciado pelo frio de Outono
Espero que a Primavera
Lentamente venha
Regar meu corpo abandonado!
Momento CLV
Areia seca, muro quente
Palco e bastidores em silêncio
Somente o mar iluminado e calmo
Numa pequena praia abandonada!
Momento CLVI
Sou o Anjo das Montanhas
Vestido de vermelho
Contrariando os verdes da montanha azul!
Minhas asas cor de terra
Terra que me irá cobrir
Cobrir até reencarnar!
Momento CLVII
Minha posição de espera
Teu braço tentando agarrar-me!
Espera de quê?
Agarrar o quê?
Não, dá-me o que me tiras-te
Deixaste-me nu, descarnaste-me carregando pedras
Mas minhas asas não caíram
Lençol azul que me cobre protege-me junto ao mar
Mar onde quero ficar e amar!
Momento CLVIII
Estou alerta
Estou atento
Espero
Sofro desesperado!
Sim sou verde por fora
Branco e virgem por dentro
Esperando por teu corpo abandonado!
Momento CLIX
Tudo que falamos
Tudo que fizemos
Tudo que era segredo
Está guardado em minhas asas!
Mas tudo se desfez
Se calhar o segredo era falso
Se calhar alguém roubou nossas chaves
Se calhar alguém quer roubar-te
Cuidado, podem violar-te
E ferir teu coração!
Tudo que falamos
Tudo que fizemos
Tudo era segredo
Segredo guardado em minhas asas!
Momento CLX
O muro e a areia da praia
Era quente nas noites de Verão
As estrelas cintilavam
As luzes dos barcos movimentavam-se inquietas
As pegadas das gaivotas
Deixavam andamentos desordenados
Que ainda hoje estão gravadas
No muro e na areia da praia
Nas noites quentes de Verão!
Momento CLXI
Quando de deitas-te em meu colo
As ondas do mar serenaram
Silenciei meu respirar
Para sentir teu descanso!
Momento CLXII
Por esta terra passei
Junto ao mar ancorei
A teu lado me dei
Perdendo tudo que conquistei!
Esse mesmo sou eu
Dei tudo que era meu
Quero o coração que é teu!
Momento CLXIII
Foste meu Anjo da Guarda
Acudiste-me quase de madrugada
Com pedra nas costas pesada
Por outra expulsada
Foste borboleta amada
Por alguém abandonada
Durante anos enganada!
Momento CLXIV
Quando as mãos se deram
As pedras da praia não fugiram
Deixaram-se adormecidas na areia!
Quando as duas mãos se desapertaram
No final das escadas
As mãos ficaram suadas
Como naquela noite de Verão!
Momento CLXV
Abriram-me a porta
Subi pelo elevador
Entrei noutra porta
E sentei-me no sofá à beira-mar
Admirando a serenidade e rebeldia do mar
Como fruto lindo da Natureza!
Momento CLXVI
Não vi teu corpo de prazeres
Numa noite enquanto de despias
Senti o acetinado da roupa, mais colada ao corpo
Vi a cor, vermelho abandonado
Vi desenhos que mais parecia um jardim
Plantado mas não regado
Em corpo abandonado!
Momento CLXVII
Não, não, não, não
Não mais persigas
Minhas longas Primaveras
Preciso de descanso
Recolhe-te no ventre de tua mãe
Abraça corpo de tua mulher se a amas!
Não fujas do pecado
Rasga teu corpo
Castra teu sexo
Mas não mais persigas
Minhas longas Primaveras!
Um dia podemo-nos encontrar
Noutro lugar muito distante
Se calhar no julgamento Celestial!
Aí até tuas flores vão chorar
Aí até tuas flores te irão julgar
Aí contínuo a ter minhas longas Primaveras
Frescas, viçosas
Aí vais ter remorsos
Quando colheres de novo
No útero de tua Mãe!
Momento CLXVIII
Levem-me, mas não me deixem
tratem-me com a dignidade da morte
Morte que vive quando nascemos!
Momento CLXIX
Os corpos saboreiam a dança
A dança despe nossos corpos
Corpos de desejo que se entrelaçam!
Momento CLXX
A luz da vela apagou-se
O perfume do frasco evaporou-se
Ficou a imagem fotográfica das recordações!
Momento CLXXI
Voam as cores no espaço
Paleta nua parada
Na hora do descanso!
Momento CLXXII
Pequenina como se a Santa fosse grande
Grande é a Santa Natureza
Que nos despe e nos mata no alto mar!
Momento CLXXIII
Na impotência do homem
Solitário na selva, selvagem
Bruto, gigante e meigo!
Momento CLXXIV
Guarda-chuva, guarda-sol
Sombrinha que abriga
Imagem parada no espírito!
Momento CLXXV
Labaredas, fogo, artifício de cor
Cor que não queima
Alma arrefecida!
Momento CLXXVI - CLXXXIV
Momento CLXXVI
Voo, poiso serenamente
Enquanto aberta estás
Na plenitude da luz do dia!
Sou rainha a teu lado
Perfume de terra
Asas ao vento
Beijo a criança que há em mim!
Momento CLXXVII
Serenamente na suavidade de meu corpo
Espero tua partida
Depois de horas de luta, corpo a corpo
Ficou o cheiro de algo
A luz apagou-se
E esqueci-me de me cobrir!
Momento CLXXVIII
Sonho acordado
Sono desfeito
Peito tapado!
Olho para longe, muito longe
Na esperança de me colar a teu corpo!
Momento CLXXIX
Navego colorida
Sardinha, Pescada, Pescadinha
Marmota, Goraz, Tainha
Minha carne faz corar
Todo o corpo de prazer!
Momento CLXXX
Saindo da Natureza
Lentamente penetro
Por entre lençol branco
Saceio e fecundo
Meu sémen de flor
Em ti Mãe Natureza ao abandono!
Momento CLXXXI
Na suavidade da areia
Passeio meu vestido ao vento
Nas águas do Atlântico
Afogo minhas angústias
De dor e corpo abandonado!
Momento CLXXXII
Peito esquecido
Ao abandono em luar
Cor que brilha
Em noites vadias!
Peito de leite suculento
Prazer de mulher e mãe
Que carrego em meu ventre
Células de homem passageiro!
Momento CLXXXIII
Em minhas mãos
As flores vão secar
Em meus olhos
As lágrimas vão correr
Pelas entranhas da Terra
Alimentando minhas raízes!
Momento CLXXXIV
Que dizem?
Gostam
De meus cabelos
Lábios
Peitos
Ou das ancas atrevidas
Aos vossos olhos?
Não digam nada
Sou a boneca perfeita
Para tuas fantasias
De noites perdidas!
Voo, poiso serenamente
Enquanto aberta estás
Na plenitude da luz do dia!
Sou rainha a teu lado
Perfume de terra
Asas ao vento
Beijo a criança que há em mim!
Momento CLXXVII
Serenamente na suavidade de meu corpo
Espero tua partida
Depois de horas de luta, corpo a corpo
Ficou o cheiro de algo
A luz apagou-se
E esqueci-me de me cobrir!
Momento CLXXVIII
Sonho acordado
Sono desfeito
Peito tapado!
Olho para longe, muito longe
Na esperança de me colar a teu corpo!
Momento CLXXIX
Navego colorida
Sardinha, Pescada, Pescadinha
Marmota, Goraz, Tainha
Minha carne faz corar
Todo o corpo de prazer!
Momento CLXXX
Saindo da Natureza
Lentamente penetro
Por entre lençol branco
Saceio e fecundo
Meu sémen de flor
Em ti Mãe Natureza ao abandono!
Momento CLXXXI
Na suavidade da areia
Passeio meu vestido ao vento
Nas águas do Atlântico
Afogo minhas angústias
De dor e corpo abandonado!
Momento CLXXXII
Peito esquecido
Ao abandono em luar
Cor que brilha
Em noites vadias!
Peito de leite suculento
Prazer de mulher e mãe
Que carrego em meu ventre
Células de homem passageiro!
Momento CLXXXIII
Em minhas mãos
As flores vão secar
Em meus olhos
As lágrimas vão correr
Pelas entranhas da Terra
Alimentando minhas raízes!
Momento CLXXXIV
Que dizem?
Gostam
De meus cabelos
Lábios
Peitos
Ou das ancas atrevidas
Aos vossos olhos?
Não digam nada
Sou a boneca perfeita
Para tuas fantasias
De noites perdidas!
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